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por William J. Bryan, Jr. M.D.
PARTE A: HISTÓRIA PREGRESSA
A história da hipnose, na realidade, iniciou-se
antes da existência de qualquer relato escrito da história humana. Nas
cerimônias religiosas e de cura de todos os povos primitivos que já
habitaram este planeta existem elementos essenciais para induzir seus
participantes em transe hipnótico. Assume-se, portanto, pelo estudo
das cerimônias de povos primitivos ainda existentes na África, na
Austrália e em outros lugares, que, mesmo antes da história começar a
ser gravada, as induções eram realizadas através de cantos rítmicos,
batidas monótonas de tambores, juntamente com o olhar fixo dos olhos
acompanhado de catalepsia do resto do corpo.
Tais cerimônias primitivas tinham como ponto essencial o foco central
da atenção, com áreas neurológicas vizinhas de inibição, sendo estes
dois fatores responsáveis por 95% da indução do transe hipnótico. Na
realidade é sem importância que estas cerimônias sejam chamadas de
religiosas, curandeirismo ou uma combinação de ambas. O fato é que o
estado de transe existia e seu caráter era hipnótico, apesar de que a
palavra "hipnose" jamais fora aplicada a ele antes de
Braid cunhar o termo em 1842.
Todos aqueles que viajam através do mundo estão familiarizados com
indús, faquires, iogues, encantadores de serpentes, e adeptos da Magia
no ocidente que induzem em si e em outros, estados catalépticos
através da fixação dos olhos e de outras técnicas de mesmerismo,
capazes de realizar proezas físicas e de eliminar a dor.
Um incidente interessante foi relatado por James
Esdaile, autor de Hypnosis in Medicine and Surgery,
onde descreve um método para se produzir anestesia usado por um famoso
mago oriental da época: "9 de Junho de 1845 – Hoje tive a honra de ser
apresentado a um dos mais famosos magos de Bengala, que desfruta de
grande reputação devido ao seu tratamento eficaz da histeria, e que
havia sido chamado para prescrever para meu paciente (cujo caso será
explicado depois), mas chegou muito tarde; pois com o sucesso do meu
encantamento (Mesmerismo), nada restou para ele fazer. Baboo
Essanchunder Ghosaul, deputado magistrado de Hooghly, a meu pedido,
apresentou-me a ele como um irmão mago, que havia estudado a arte da
magia em diferentes lugares do mundo, mas particularmente no Egito,
onde eu havia aprendido os segredos do grande Soolevmann, com os mulás
e os faquires, e que eu tinha o grande desejo de comprovar se nossos
encantamentos eram os mesmos, pois os maometanos da Europa estimavam
muito os homens sábios do oriente, sabendo que todo conhecimento havia
ali se originado. Eu sugeri que devíamos mostrar nossos encantamentos
um ao outro, e, após convencê-lo, ele concordou em mostrar-me seu
processo de alívio da dor. Ele pediu um pote de metal contendo água e
um pequeno galho com duas ou três folhas, e começou a resmungar seus
encantamentos, à meio metro de distância do paciente. Logo depois, ele
mergulhou seu dedo indicador na água, e, com a ajuda de seu polegar,
jogou pingos no rosto do paciente. Ele então pegou as folhas e começou
a bater na pessoa do topo da cabeça até os dedos dos pés, com um
vagaroso movimento no ar. As articulações de seus dedos quase tocavam
o corpo do paciente, e ele disse que continuaria com este processo por
uma hora ou mais se necessário. E isto me convenceu de que estes
encantadores, quando quer que tenham sucesso com estes meios, este é
devido à influência mesmérica, provavelmente desconhecida para eles
mesmos. Eu disse que estava convencido da grande eficácia de seu
encantamento, e que agora lhe mostraria o meu, mas que ele o
compreenderia melhor se realizado em sua própria pessoa. Depois de
alguma dificuldade, conseguimos fazer com que ele se deitasse e
encarasse meus procedimentos com a devida solenidade. Eu cantei, como
uma invocação, o coro de "Kings of the Cannibal Islands"! Eu
queria que ele fechasse seus olhos, e ele apertou suas pálpebras
firmemente, para que eu não achasse a entrada para o cérebro através
daquele orifício. Depois de quinze minutos ele deu um pulo, dizendo
que havia sentido algo desagradável vindo por cima de si, e quis
escapar. Entretanto, ele foi novamente persuadido a se deitar, e logo
vi os músculos em volta de seus olhos começarem a relaxar e seu rosto
tornou-se perfeitamente suave e calmo. Eu estava certo de que havia
pego meu irmão mago tirando uma soneca, mas, depois de alguns minutos,
ele levantou-se repentinamente, juntou as mãos na cabeça gritando que
se sentia embriagado, e nada podia induzi-lo a se deitar novamente:
"abiit, excessit, evasit, erupit!". No dia seguinte, eu o
encontrei e disse: "Bem, na última noite você foi muito forte para
meu encantamento, e não consegui fazer você dormir". "Oh! Sim,
Sahib", respondeu, "Você conseguiu; eu permiti; é permitido
que você me faça dormir".
Tal como Moll observou, estes fenômenos hipnóticos também são
constatados como tendo existido há vários milhares de anos entre os
Magos da Pérsia, até a presente época entre os iogues e faquires da
Índia.
O mais antigo relato registrado de curas através da hipnose foi obtido
nos Papiros de Ebers, os quais nos dá uma idéia a respeito da teoria e
prática da medicina egípcia antes de 1552 A.C.. Nos Papiros de Ebers é
descrito um tratamento no qual o médico colocava suas mãos sobre a
cabeça do paciente e, afirmando possuir poderes sobre-humanos de cura,
recitava estranhos mantras terapêuticos que eram sugeridos aos
pacientes, resultando em cura. O Rei Pyrrhus do Egito, o Imperador
Vespasiano, Francis I da França e outros reis franceses até Charles X,
praticavam a cura dessa maneira.
Acredita-se que os egípcios tenham sido os criadores dos "Templos
do Sono", nos quais os sacerdotes administravam tratamento
similar em seus pacientes através do uso da sugestão. Estes templos
tornaram-se muito populares no Egito, espalhando-se posteriormente
para a Grécia e Ásia Menor.
É sabido que Hipócrates, o médico grego mais frequentemente citado
como o "pai da medicina", e cujo juramento é feito por todos os
médicos ao se formarem, discutiu o fenômeno afirmando que "a
aflição sofrida pelo corpo, a alma enxerga muito bem com os olhos
cerrados".
Os romanos tomaram emprestado dos gregos a cura pelo transe, bem como
diversos outros aspectos da cultura grega, durante o período do grande
Império Romano. Muitos homens de grande sabedoria foram trazidos da
Grécia como escravos para ensinar os jovens romanos. Entre os romanos,
Esculápio costumava induzir seus pacientes a um "sono profundo",
aliviando a dor através de leves pancadas com sua mão.
O advento do Cristianismo tem muito a ver com o declínio da hipnose e
da cura através do transe, porque a hipnose passou a ser considerada
uma prática de feitiçaria, e a cura através do transe, quando
praticada, era cercada de todo segredo possível. Todavia, apesar disto
Jesus empregou a hipnose para realizar vários de seus milagres. Uma
completa discussão desse assunto é encontrada no meu livro
Religious Aspects of Hypnosis, publicado em 1962 por Charles C.
Thomas and Co., Springfield, Illinois.
No século X, Avicenna, um grande médico árabe, afirmou: "A imaginação
pode fascinar e modificar o corpo de um homem, tornando-o doente ou
restaurando-lhe a saúde".
Por volta da metade do século dezesseis, um homem chamado
Theophrastus Paracelsus expôs uma nova teoria a respeito da
produção de doenças. Esta teoria afirmava que certos corpos celestes,
especialmente as estrelas, influenciavam o comportamento dos homens.
Ele também postulou que os homens influenciavam uns aos outros,
preceito este que ainda é um conceito básico no estudo da "psicologia
do comportamento".
Van Helmont, Maxwell da Escócia e Santanelli da Itália, afirmaram
praticamente a mesma coisa por volta do ano de 1600, estabelecendo a
fundação para o conceito do magnetismo animal, que mais tarde seria
tornado famoso por Mesmer. É possível provar que quase toda
civilização antiga estava familiarizada, de uma forma ou de outra, com
a hipnose. LeCron lembra que está descrito em alguns
Mantras
indianos, escritos em caracteres antigos, que os mongóis, os tibetanos
e os chineses possuíam o conhecimento da hipnose, e que até mesmo uma
descrição detalhada do assunto é dada no Kalevala, o grande poema
épico dos finlandeses.
PARTE B: HISTÓRIA MODERNA
Seção 1. Padre Gassner

É irônico o fato de que a história moderna da
hipnose inicie-se não com um médico, mas com um membro do clero, um
padre católico que viveu em Klosters. O Padre Gassner defendia a tese
de que, de acordo com as crenças da época, os pacientes doentes
estavam possuídos por demônios, que deviam ser banidos, antes que o
paciente pudesse novamente gozar de boa saúde. Gassner obteve o
consentimento da Igreja para suas ações através da afirmação de que
Deus estava agindo através dele para expulsar os demônios que estavam
possuindo seus infelizes pacientes.
Diferentemente de outros homens de sua época, o Padre Gassner não
fazia segredos de seus métodos, e freqüentemente permitia que médicos
observassem-no administrando seu tratamento. Os médicos que se
apresentavam para observá-lo em ação eram conduzidos a uma sala
parecida com um pequeno teatro onde se acomodavam, e então o paciente
era posicionado numa espécie de palco no centro desta sala para
esperar pelo Padre Gassner. Com o objetivo de melhorar ainda mais o
espetáculo, no ‘timing’ de sua entrada, Gassner caminhava até a
plataforma através de um longo promontório negro, segurando um grande
crucifixo de "ouro" com a mão estendida ao alto. O paciente era de
antemão avisado que quando o Padre Gassner o tocasse com o crucifixo,
ele prontamente cairia ao chão e permaneceria ali esperando novas
instruções. Os pacientes de Gassner eram instruídos a "morrer"
enquanto jaziam prostrados ao chão, e que durante este período de "morte"
Gassner expulsaria os demônios de seus corpos, devolvendo-lhes a vida
normal novamente. (Esta idéia de renascimento permeia tanto a hipnose
quanto a religião, inclusive suas formas mais primitivas). Este
assunto é discutido em maiores detalhes em meu livro entitulado
Religious Aspects of Hypnosis.
Depois que algum médico examinava o paciente, não sentindo seu pulso,
não ouvindo as batidas do coração e dando-o como morto, o Padre
Gassner ordenava que o demônio partisse e, logo após, o paciente
‘ressuscitava’ e se levantava completamente curado. É dito que Mesmer
assistiu várias performances do Padre Gassner por volta de 1770, sendo
depois responsável pela introdução do fenômeno na prática médica.
Seção 2. Franz Anton Mesmer

Franz Anton Mesmer, filho de um guarda florestal,
nasceu em 23 de maio de 1734, em Iznang, no Lago Constance, Alemanha.
Ele estudou nas Universidades de Dillingen e Ingolstadt, na Áustria,
onde recebeu seu Ph.D., estudando Direito posteriormente. Recebeu seu
grau de Doutor em Medicina no ano de 1766, depois de apresentar um
artigo com o título de 'De Planetarum Influx'
(Sobre a Influência dos Planetas). Dois anos depois de sua
graduação, Mesmer casou-se com a rica viúva de um Tenente-Coronel do
exército, de nome Marie Anna Von Posch, em 10 de janeiro de 1768.
Incapaz de aceitar a hipótese do Padre Gassner de que os pacientes
eram possuídos por demônios, Mesmer acreditava que de alguma maneira o
crucifixo de metal empunhado por Gassner fosse talvez o responsável
pela magnetização do paciente; então desenvolveu suas idéias e
explicou os resultados na teoria do magnetismo animal, testada pela
primeira vez em 1773, em uma jovem de 28 anos, Franziska Osterlin, que
por acaso se casou com Fredrich Von Posch, enteado de Mesmer. Mesmer
publicou seu primeiro relato da cura magnética em 1775, sob o título
de Schreiben Über die Magnetiker. Apesar de
sua fama continuar a se espalhar, ele foi forçado a deixar Viena após
o famoso caso Paradis, no qual o Dr. Von Stoerck e o Dr. Barth foram
seus oponentes. Em 1777, Maria Theresa Paradis, uma jovem pianista
cega, e favorita da Imperatriz da Áustria, que recuperou sua visão
depois de ser tratada por Mesmer, apesar do fato de ter estado por dez
anos sob os cuidados do maior especialista em olhos da Europa, o Dr.
Von Stoerck, sem qualquer melhora. Influenciada por médicos ciumentos,
a mãe da criança afastou-a dos cuidados de Mesmer antes da cura estar
completa. Numa cena de emocionalismo, a mãe deu um tapa no rosto da
criança por ela não querer deixar a clínica do Dr. Mesmer, fazendo com
que a cegueira histérica se reafirmasse.
No entanto, a influência de Mesmer ainda era grande o bastante para
garantir uma recomendação do Ministro do Exterior austríaco à
Embaixada Imperial em Paris, para onde se mudou em fevereiro de 1778.
Ele fundou uma clínica com D'Eslon, na Place Vendôme, e publicou seu
famoso livro em 1779, Mémoire Sur La Découverte Du
Magnetisme Animal.
Em 1784, o governo francês investigou Mesmer, declarando-o um farsante.
Entretanto,
Benjamin Franklin, que era membro do comitê de investigação,
escreveu o relatório da minoria, que afirmava que o fenômeno era digno
de maiores considerações. Outros membros da comissão eram Jussieu,
famoso por sua ligação com os Twilleries; Guillotin, o inventor da
guilhotina, que leva seu nome; e
Lavoisier, o famoso químico francês cujo nome ainda é familiar aos
americanos como o nome de uma marca de antisséptico bucal! A descrição
fascinante de Esdaile a respeito da investigação
afirma que ele acreditava que o veredito era justo o bastante,
considerando a natureza das provas apresentadas aos membros da
comissão. Ele continua afirmando: “...mas entretanto, (tal é a
falibilidade humana), neste caso, summum jus também era
summa injuria; a verdade foi sacrificada à falsidade, como penso
que se tornará claro de uma rápida análise dos procedimentos. Este
provavelmente não será tempo perdido, pois tenho ouvido cavalheiros
inteligentes dizerem que o relato dos filósofos franceses ainda
decidiam suas opiniões. Eles tinham uma série de axiomas sobre o
Mesmerismo que lhes foram apresentados, cuja verdade eles examinariam
e a eficácia de certos processos deveria ser provada para sua
satisfação através de experimento.
O objetivo dos Mesmeristas parece ter sido tentar convencer a comissão
de que Mesmer possuía um segredo digno de ser aprendido, e ao mesmo
tempo continuar a guardá-lo para si ocultando sua extrema simplicidade
sob o manto de um complicado mecanismo e vários tipos de teatralismos.
D'Eslon, aluno de Mesmer, propôs suas leis do Magnetismo Animal desta
forma:
I. O magnetismo Animal é um fluído universal, constituindo um polônio
absoluto na natureza, e o meio de toda influência mútua entre os
corpos celestes, e entre a terra e os corpos animais. Esta é uma
afirmação muito exagerada.
II. É o fluído mais sutil na natureza, capaz de fluxo e de refluxo, e
de receber, propagar, e dar continuidade a todas as formas de
movimento.
III. O corpo animal está sujeito às influências deste fluído através
dos nervos, que são imediatamente afetados por ele. Não vemos outra
maneira no presente.
IV. O corpo humano possui pólos e outras propriedades, análogas ao ímã.
A primeira proposição jamais foi provada, e admite tudo como sendo
correto; e na segunda existe apenas probabilidade.
V. A ação e a virtude do magnetismo animal pode ser transmitida de um
corpo a outro, quer animado ou inanimado. Isto está correto, no que
diz respeito às relações entre corpos animados; e estes podem também
impregnar substâncias inanimadas.
VI. Opera a uma grande distância, sem a intervenção de qualquer pessoa.
Verdadeiro.
VII. É aumentado e refletido por espelhos, transmitido, propagado e
aumentado pelo som, e pode ser acumulado, concentrado, e transportado.
VIII. Não obstante a universalidade deste fluído, todos os corpos
animais não são afetados por ele; por outro lado existem alguns,
apesar de que pequeno em número, cuja presença, destrói todos os
efeitos do magnetismo animal. A primeira parte está correta, a última
não é improvável.
IX. Por meio deste fluído, doenças nervosas são curadas imediatamente,
e outras medialmente; e suas virtudes, de fato, estendem-se à cura
universal e a preservação da Verdade da humanidade, a um grau tão
elevado, que ainda não sabemos o quão longe poderá ir.
Surpreende o fato de que a comissão desdenhosamente recusou tamanha
quantidade de asserções absolutas e de teorias insustentáveis, com
certeza temperadas com verdade, porém tão diluídas e obscurecidas a
ponto de se tornarem irreconhecíveis? Como uma testemunha de Bengala,
D'Eslon não se contentou em simplesmente dizer a verdade, mas
acrescentou por conta própria tantas invenções corroboradoras a ponto
de ninguém saber em que acreditar, e o caso foi encerrado como indigno
de posterior investigação. Ele arruinou a si e a sua causa também, (talvez
por ignorância) ao carregar a verdade com um pacote de maquinarias
espalhafatosas, através das quais esperava que o poder da natureza
penetrasse. Mas a Natureza, como um camelo sobrecarregado, virou-se
contra seu condutor, jogando a si e sua parafernália de plataformas
magnéticas, bastões e cordas condutoras, pianos, árvores e baldes
magnetizados, na lama; e a verdade retirou-se em desgosto para o fundo
de seu poço, para lá permanecer até que homens mais honestos pudessem
novamente extraí-la para surpreender e beneficiar o mundo.
Até onde concerne minha observação, tudo o que é necessário para o
sucesso, se as partes estiverem na relação do agente e do sujeito, é a
obediência passiva do paciente e uma atenção e paciência sustentada
por parte do operador. O processo sendo natural, quanto mais as partes
estiverem num estado natural, melhor: os corpos de meus pacientes
estando despidos, e suas cabeças geralmente raspadas, provavelmente
não é de pouca conseqüência nos procedimentos…"
Existem algumas asserções muito importantes neste excerto do livro de
Esdaile. Em primeiro lugar, ele certamente salienta claramente a razão
por que a comissão rejeitou o fenômeno como sendo indigno de
posteriores investigações. Segundo: ele também ilustra a questão de
forma dupla através do acréscimo de um número de suas próprias
concepções erradas, concepções estas que no entanto eram aceitas como
verdadeiras em sua época, no que diz respeito à prática médica.
Terceiro: ele sumariza uma teoria realmente astuta e brilhante em
apenas uma sentença: ‘Até onde concerne minha observação, tudo o que é
necessário para o sucesso, se as partes estiverem na relação do agente
e do sujeito, é a obediência passiva do paciente e uma atenção e
paciência sustentada por parte do operador.’ Quarto: ele faz uma
observação que poderia servir para outros experimentos: O processo
sendo natural, quanto mais as partes estejam num estado natural,
melhor. Isto poderia ser conseguido de uma forma melhor por outros
meios que não a mera nudez, apesar de que, talvez, possivelmente o
fato de estar nu, o indivíduo psicologicamente está "sem defesa", ou
mais "submisso". Meu método favorito de indução é levar o paciente com
todos os seus sentidos para uma viagem a uma área de floresta
primitiva, cheia de paz e quieta, tranqüila e calma, onde a
concentração e o relaxamento são maiores. Os espíritos da obediência
passiva, bem como da viagem à vastidão da natureza para buscar
comunhão com Deus, fazem parte de toda grande religião do mundo.
O acima já é o suficiente no que tange ao relatório da comissão que
teve como seu principal efeito a denúncia de Mesmer, seus métodos e
suas teorias, apesar de que suas teorias estavam, na realidade, sendo
mais julgadas do que seus métodos.
Depois de ser denunciado em Paris, a popularidade de Mesmer
rapidamente diminuiu, e então ele viajou para a Inglaterra, Itália e
Alemanha, retornando para uma rápida visita a Paris antes do início da
revolução. Ele então estabeleceu-se em Frauenfeld, na Suíça, até o
verão de 1814, quando mudou-se para Morsburg, onde faleceu no dia 5 de
março de 1815.
Não é de conhecimento geral, mas no entanto verdadeiro, que Mesmer e
seu filho publicaram trabalhos sobre o magnetismo animal, e até mesmo
hoje cópias destas obras completas podem ser obtidas.
Quando os pacientes de Mesmer eram colocados em banheiras cheias de
água e de limalhas de ferro das quais sobressaíam-se varas maiores de
ferro, Mesmer sugeria a eles que, quando os tocasse com seu bastão
magnético, eles se tornariam magnetizados e eventualmente entrariam
num estado de "crise" do qual sairiam curados. Seus pacientes
invariavelmente se curavam e Mesmer considerava a crise uma
necessidade absoluta para a cura. Mesmer era uma figura muito
imponente com seus longos robes, segurando seu bastão magnético e
passando de quarto em quarto em sua clínica. Seus métodos de
magnetismo, portanto, permaneceram inqüestionados e seu discípulo e
aluno de boa fé, o Marquês de Puysegur, colocava pacientes em um
transe que chamava de sonambulismo artificial, no qual os pacientes
não entravam num estado de crise, mas num estado de calmo relaxamento.
(O Marquês havia se esquecido de sugerir de antemão aos seus pacientes
que eles experimentariam um ‘ataque’!)
Seção 3. Marquês de Puysegur

O Marquês de Puysegur foi responsável pela
descrição das três características fundamentais da Hipnose: 1)
concentração dos sentidos no operador, 2) aceitação das sugestões sem
questionamento, e 3) amnésia em relação a acontecimentos em transe. Em
1814, o Padre Faria sugeriu que os fenômenos descritos por Mesmer não
eram causados pelo magnetismo animal, mas, na realidade, pela sugestão.
No entanto, a popularidade de Mesmer estava tão bem estabelecida que a
hipótese de Faria foi logo esquecida. O Dr. Wolfart, a pedido do
governo da Prússia, viajou de Berlim para Frauenfeld em 1812, para
investigar Mesmer e para aprender tudo o que o que fosse capaz a
respeito do magnetismo animal, trazendo posteriormente este
conhecimento para a Universidade de Berlin. No mesmo período, Koreff
já estava em Paris numa missão semelhante. O Mesmerismo espalhou-se
rapidamente através da Europa, incluindo a Suíça, a Itália e até mesmo
os países Escandinavos. Isto produziu muitos especialistas, incluindo
Eschenmayer, Kerner, Lallemant, Schelling, Passavant, Kluge, Pace,
Ostermeyer, Pfaff, Pezold, Selle, Bartels e muitos outros.
Seção 4. James Braid

No dia 13 de novembro de 1841, um magnetizador
francês chamado La Fontaine, que demonstrou o Mesmerismo, introduziu
James Braid pela primeira vez ao Mesmerismo (teoria baseada no
magnetismo animal) e aos experimentos mesméricos numa reunião
acontecida naquele dia. Uma descrição completa desta reunião pode ser
encontrada por escrito juntamente com uma história detalhada da
atividade de Braid, no livro de Bramwell, Hypnotism, Its
History, Practice and Theory. James Braid é mais
conhecido pelo fato de ter renomeado o Mesmerismo para "Hipnotismo",
em 1842, com base na palavra grega "Hypnos",
que significa "sono", e por ter se oferecido a apresentar um documento
a seu respeito numa reunião da British Medical Association,
em Manchester, que recusou. Apesar disso, ao contrário de Mesmer, ele
manteve uma boa reputação profissional em sua comunidade durante toda
sua vida, e não apenas ficou conhecido como um excelente hipnotista,
mas também como foi amplamente aclamado por suas cirurgias de pé plano
(chato) e outras deformidades. No final de sua vida, Braid concluiu
que o hipnotismo não era um verdadeiro sono, mas uma concentração da
mente, e tentou mudar o nome para monoideísmo. Mas, na época, "Hipnose"
e "Hipnotismo" já eram palavras bem enraizadas em todas as línguas da
Europa, abandonando por fim este esforço de mudar o nome. Braid nasceu
em Rylaw House, em Fifeshire, no ano de 1795, tendo estudado em
Edinburgo e lá se formado como cirurgião. Depois de trabalhar na
Escócia durante um curto período de tempo, ele mudou-se para
Manchester, Inglaterra, onde viveu até sua súbita morte no dia 25 de
março de 1860, vítima de ataque do coração. Ele cultivou a prática e o
interesse no hipnotismo durante toda sua vida, escrevendo vários
documentos e monografias sobre o assunto. Apesar de Braid ser mais
conhecido por ter renomeado a arte de Mesmer para hipnotismo, ele
também foi responsável por várias idéias que ainda persistem até o
presente. Estas são como descritas a seguir:
1: Que a hipnose é uma ferramenta poderosa que deveria ser limitada
somente aos profissionais da medicina e da odontologia.
2: Que apesar de ter o hipnotismo sido capaz de curar muitas doenças
para as quais antes não havia remédio, não era, no entanto, uma
panacéia, mas era apenas uma ferramenta médica que deveria ser usada
em combinação com outras informações médicas, drogas, remédios, etc.,
para apropriadamente tratar os pacientes.
3: Que em mãos qualificadas não há grande perigo associado ao
tratamento com a hipnose, nem sequer dor ou desconforto.
4: Que muitos estudos e pesquisas seriam necessários para
compreendermos por completo vários conceitos teóricos a respeito da
hipnose.
Estes enunciados filosóficos eram extremamente sólidos, especialmente
para um médico que viveu no século XIX e que possuía conhecimentos
limitados, disponíveis naquela época. O fato de que estes conceitos
permaneceram virtualmente imutáveis até hoje demonstra, claramente, o
brilhantismo deste grande médico e hipnotista de Manchester.
Seção 5. John Elliotson

Tal como Braid, Elliotson graduou-se em medicina
em Edinburgo, mas continuou seus estudos no continente e em Cambridge
e no Sir Guy's Hospital, onde tive o prazer de palestrar em 1958. Ele
nasceu em 1791 e morreu no dia 29 de julho de 1868, após uma longa
doença, na casa de seu amigo, o Dr. Symes, um aluno formal. Assim como
Braid, Elliotson foi um brilhante médico, palestrante e Professor de
Medicina. A fama de Elliotson, entretanto, até mesmo excedeu a de seu
predecessor, o Dr. Braid, pois Elliotson chegou ao topo da vida
acadêmica de Professorado em Medicina na Universidade de Londres. Ele
também foi nomeado Presidente da Royal Medical and Surgical
Society, e foi um dos fundadores do University College
Hospital, em Londres.
Ele introduziu o estetoscópio na Inglaterra, juntamente com os métodos
de se examinar o coração e os pulmões da forma que são utilizados até
hoje. Uma história completa de sua vida aparece também no livro de
Bramwell.
Elliotson é mais conhecido pelo fato de ter estabelecido o primeiro
periódico a tratar do hipnotismo, em 1846. Esta revista tinha o título
de ‘The Zoist’, e cópias completas de seus
números ainda podem ser obtidas através de algumas fontes. Ele foi
expulso do University College Hospital por ter escolhido a
hipnose como o assunto do discurso Harveiano de 1846. Neste discurso,
Elliotson citou esta passagem memorável das obras de Harvey: "Os
verdadeiros filósofos, compelidos pelo amor à verdade e à sabedoria,
nunca se imaginam tão sábios e cheios de si a ponto de não se renderem
à verdade, de qualquer fonte e a qualquer tempo; nem possuem eles
mentes tão estreitas a ponto de acreditar que qualquer arte ou ciência
nos foi transmitida por nossos predecessores em tal estado de
perfeição a ponto de nada restar para futura dedicação".
Elliotson aplicou então as palavras de Harvey à ciência do Hipnotismo
e afirmou em termos nada duvidosos que era o dever dos médicos daquela
época analisar cuidadosamente e com isenção sua pesquisa sobre o
assunto. Muitos artigos interessantes foram publicados em seu
periódico The Zoist, que foi publicado
trimestralmente de abril de 1843 até 31 de dezembro de 1855. Durante
treze anos, artigo após artigo foi publicado por Elliotson, Esdaile e
muitos outros médicos brilhantes da época, testemunhando os excelentes
resultados do tratamento com hipnose para insanidade, epilepsia,
histeria, gagueira, nevralgia, asma, torcicolo, dores de cabeça,
dificuldades funcionais do coração, reumatismo, tic doloroso, cólicas
espasmódicas, ciática, lumbago, paralisia, convulsões, inflamações
agudas dos olhos e dos testículos, e relatos de centenas de operações
sem dor, desde a remoção de uma catarata até a amputação do pênis, a
qual James Esdalie relatou dois casos. Parker (que originou a
expressão "Parker Sem Dor") relatou cerca de 200 operações sem dor na
Exeter, uma instituição que Elliotson ajudou-o a fundar.
Elliotson era excelente no campo da hipnose infantil, e trabalhou com
muitas crianças e com muitas doenças infantís, tais como Dança de São
Vito, coréia, tiques e outras enfermidades. Ao contrário de Braid, no
entanto, Elliotson continuou a acreditar na clarividência e outros
fenômenos místicos até sua morte.
Seção 6. James Esdaile
O Dr. James Esdaile provavelmente realizou mais
operações cirúrgicas sob hipnoanestesia do que qualquer outro médico,
pelo menos até a presente época. Ele era um homem de extrema
perspicácia e inteligência que trabalhou a maior parte de sua vida na
Índia, e provavelmente é mais conhecido por seu trabalho com a hipnose
do que qualquer outro homem, com a possível exceção do próprio Mesmer.
Ele nasceu no dia 6 de fevereiro de 1808, filho de um ministro, e como
Elliotson e Braid, estudou em Edinburgo, onde graduou-se em 1830,
obtendo um cargo na East India Company.
Esdaile realizou sua primeira operação sob hipnose no dia 4 de abril
de 1845, em um hindu condenado à prisão que tinha dupla hidrocele, no
hospital de Hooghly. Após realizar 75 operações sob hipnoanestesia,
ele escreveu à junta médica, porém sua carta não foi nem sequer
reconhecida. Mais tarde, no final daquele mesmo ano, tendo mais de cem
operações em seu crédito, ele contatou Sir Herbert Maddock, o então
vice-governador de Bengala, que nomeou um comitê de investigação
composto primariamente de médicos.
Ao receber o relatório favorável deste comitê, o Governador então
colocou Esdaile como responsável de um pequeno hospital experimental
próximo a Calcutá, para que ele pudesse dar continuidade em sua
pesquisa sobre a hipnose, sejam quais fossem os valores que esta
pudesse ter. Esdaile iniciou sua pesquisa em novembro de 1846, com os
seguintes médicos nomeados para auxiliá-lo: R. Thompson, D. Stuart, J.
Jackson, F Mouatt, R. O'Shaughnessy. E, ao final do primeiro ano do
trabalho experimental de Esdaile, ele já tinha mais 133 operações em
seu crédito, bem como um grande número de casos médicos. Os relatos
daqueles que visitaram a instituição continuaram a ser favoráveis, e,
portanto, com o continuado apoio do vice-governador, Esdaile foi então
indicado para trabalhar no Lane Hospital and Dispensary de Sarkea,
para dar continuidade ao seu trabalho e expandi-lo para outros campos
da medicina.
A fama de Esdaile espalhou-se para todos os cantos, e certa vez ele
afirmou com sinceridade que havia feito mais operações em tumores
escrotais em um mês do que todas as que aconteceram em todos os
hospitais de Calcutá em um ano inteiro. Alguns médicos locais que
achavam seus pacientes serem histéricos, criticaram-no nas revistas
médicas. O comentário de Esdaile quanto a isto foi que o seu próprio
relato dos casos ainda era digno de nota, nem que se fosse como um
exemplo de uma epidemia da insanidade. Seu senso de humor o acompanhou
até quando deixou a Índia, em 1851. Ao deixar aquele país, ele tinha
milhares de operações sem dor em seu crédito, e cerca de 300 grandes
operações, todas executadas com a hipnose. Enquanto estava na Índia, o
clorofórmio foi introduzido como um anestésico e depois de ter deixado
a Índia, um prêmio de dez mil dólares foi oferecido em 1853 ao
descobridor das propriedades anestésicas do éter, que foi descrito
como o primeiro dos anestésicos. Esdaile enviou uma carta revoltada de
protesto contra isso, chamando a atenção ao fato de que ele havia
realizado cirurgias sem dor com o Mesmerismo anos antes que qualquer
pessoa tivesse ouvido falar do éter. (A propósito, o clorofórmio
surgiu antes do éter.)
Desgostoso com a Índia, e "não dando a mínima" a respeito de uma
grandiosa prática em Calcutá, Esdaile retornou a Perth, o lar de seu
pai, onde estabeleceu-se e permaneceu até desenvolver uma doença nos
pulmões (tuberculose?), mudando-se então da Escócia para a cidade de
Sydenham, na Inglaterra, onde morreu com a idade de 50 anos, no dia 10
de janeiro de 1859. Suas obras foram numerosas, mas talvez a mais
famosa seja um livro originalmente entitulado Mesmerism in
India, e posteriormente publicado sob o título
Hypnosis in Medicine and Surgery. Neste livro,
ele não apenas relatou 73 operações sem dor, mas também descreveu 18
casos médicos de paralisia, lumbago, ciática, convulsões e tic
doloroso, além de informar o público sobre a hipnose. Ele atacava a
estupidez de certos médicos que eram cegos para quaisquer novas idéias,
citando a frase em latim "Stare super vias Antiquas", para
descrever tais médicos. Ele chegou ao ponto de dizer que, como um
amante da verdade por si só, ele ficava pouco satisfeito quando seus
amigos lhe diziam: "Eu acredito porque você está dizendo". Ele achava
que esta era uma crença estéril e constantemente procurava médicos
para demonstrar-lhes sua recém descoberta ferramenta médica. O médico
Jacob Conn, da Universidade de Medicina Hopkins, afirmou que ninguém
trabalhou mais diligentemente do que James Esdaile para trazer o valor
da analgesia e da anestesia hipnótica à atenção dos profissionais da
medicina. A obra de Esdaile evidentemente se pagou, pois a Associação
Médica Britânica relatou favoravelmente em 1891 que "Como um agente
terapêutico, o hipnotismo é com freqüência eficaz no alívio da dor,
proporcionando sono e suavizando muitas indisposições funcionais".
Seção 7. Dr. Ambroise-Auguste Liebeault

Liebeault é amplamente conhecido como o "Pai da
Hipnose Moderna". A razão para isto é, antes de tudo, ter sido
Liebeault o homem que concluiu e publicou a observação de que todos os
fenômenos do hipnotismo são subjetivos em origem. Liebeault foi um
humilde médico francês que, apesar de ser desinteressado pela pesquisa
de uma maneira geral, foi, no entanto, um gênio na terapêutica. Ele
manteve a prática médica de forma constante no campo, que o manteve
ocupado dia e noite até receber seu diploma em medicina em 1850. Sua
prática no hipnotismo era quase totalmente gratuita, e por causa disto
obteve o sereno respeito de todos que o conheciam. Ele nasceu em 1823,
começou seus estudos em medicina em 1844, e iniciou seus experimentos
com o hipnotismo em 1848, mesmo antes de ter concluído a universidade.
Após ter completado várias sessões terapêuticas de hipnose, ele
escreveu um livro que demorou dois anos para ser concluído. O
ceticismo no entanto, era tão grande que ele vendeu apenas uma cópia,
e foi para Bernheim. Em 1882, Liebeault curou um caso obstinado de
ciática, que Bernheim havia tratado sem resultados por cerca de seis
meses. Em parte por causa de sua curiosidade, e em parte porque queria
expor Liebeault como um charlatão, Bernheim comprou o livro e viajou
para se encontrar com ele, convencido de que de fato Liebeault era um
charlatão. Entretanto, Bernheim ficou tão impressionado pelo seu
trabalho a ponto de decidir ficar com ele e dele tornou-se um devotado
aluno e amigo por toda a vida. Bernheim e Liebeault, então, publicaram
juntos outro livro, que foi amplamente aclamado. Isto assim o foi
especialmente por causa do grande número de fascinantes históricos dos
casos de Liebeault.
Enquanto Parker e seus contemporâneos estavam primariamente
interessados na cirurgia sem dor, Liebeault invadiu todos os campos da
medicina, sendo de fato o médico mais importante na ampliação do
escopo da terapêutica através do uso da hipnose. Uma descrição
excelente da clínica de Liebeault aparece no livro de
Bramwell.
Liebeault tornou-se um adepto da hipnose rápida e, de fato, foi um dos
primeiros a perceber que para a maior parte dos casos de hipnoterapia,
um transe profundo era desnecessário, fato assinalado com freqüência
pelo Dr. S. J. Van Pelt. Ao contrário, Liebeault induzia seus
pacientes com não mais do que um aceno de sua mão e uma frase rápida,
tal como "Durma, meu gatinho"; sugeria que os sintomas mórbidos se
fossem e permitia que os pacientes acordassem quando desejassem. Ele
atendia centenas de pacientes, raramente demorando-se mais do que
quinze minutos com eles. Bramwell afirma que todos os pacientes de
Liebeault melhoravam ou se curavam, após seus tratamentos de sugestão
rápida. Liebeault, com a assistência de Bernheim, estabeleceu o que
ficou conhecida como a "Escola de Nancy". Este foi um período de
desenvolvimento da hipnose durante o qual uma grande quantidade de
trabalhos experimentais foram feitos com muitos tipos de indução.
Ao mesmo tempo que Liebeault estava meramente usando a palavra "durma",
com um gesto de sua mão, Charcot, por outro lado, estava violentamente
tocando gongos e piscando ‘luzes de drummond’. Os alemães Weinhold e
Heidenhain preferiam o tique-taque de um relógio, e Berger usava
chapas quentes de metal. As idéias do magnetismo e dos processos
magnéticos ainda não haviam desaparecido por completo. Apesar de
Liebeault explicar os fenômenos como sendo subjetivos, Piteres
sustentava que certas partes do corpo eram particularmente sensíveis
ao estímulo da pele, e estas assim chamadas zonas hipnóticas que foram
descritas por ele, existiam, algumas vezes, em apenas um lado do corpo
e, em outras, em ambas.
Moll afirmou ter ele mesmo visto muitas pessoas serem hipnotizadas
apenas quando suas testas eram tocadas. Purkinje e Spitt afirmaram que
toques na testa induziam um estado sonolento em muitas pessoas. A
técnica de balançar o berço para induzir crianças era bem conhecida, e
Eisenhart mencionou que o toque na testa era uma excelente técnica de
indução em crianças. Hirt usava com freqüência a eletricidade para
induzir a hipnose, e Sperling, um contemporâneo de Bramwell e de Moll,
descreveu os transes hipnóticos dos Dervixes que havia visto em
Constantinopla (atual Istambul). Drzewiecki sentiu que havia uma
diferença na suscetibilidade à hipnose por causa da nacionalidade, e
chegou a afirmar que os russos eram mais facilmente hipnotizáveis do
que qualquer outro povo. Entretanto, percebeu-se mais tarde que nem
nacionalidade e nem sexo contavam na habilidade de uma pessoa ser
hipnotizada. Foi somente depois de Liebeault atingir uma idade
avançada e ter-se aposentado da medicina, que ele desfrutou um pouco
da aprovação que certamente lhe era devida. Ele não buscou e nem fez
fortuna. Até sua morte, permaneceu feliz e tranqüilo, cônscio de uma
vida bem vivida no tratamento dos pobres.
O Dr. Bernheim, da Escola Nancy, é talvez mais conhecido pela
propaganda do uso da hipnose. Apesar de ter Liebeault sido responsável
pela ampliação da terapêutica, seu livro nunca foi amplamente lido. No
entanto, quando Bernheim publicou seu livro sobre hipnose (com os
históricos dos casos de Liebeault), este foi imediatamente aceito em
todos os lugares. De fato, não obstante a tremenda reputação de
Charcot e de seu pioneirismo com a Escola de Salpêtrière, mais e mais
pessoas adotaram o modo de pensar da Escola Nancy. A disputa médica
continuou através de todo o século XIX e até o início do século XX,
com cada lado reivindicando vitórias na explicação da hipnose.
Bernheim simplesmente pedia ao paciente para olhar para ele, não
pensar em nada além de sono, e então dizia-lhe: "Suas pálpebras
começarão a ficar pesadas, seus olhos estão cansados e começam a
piscar, eles estão ficando úmidos, seus olhos não podem ver
distintamente, e eles estão fechados." Se o paciente não fechasse seus
olhos e caísse no sono quase imediatamente, como acontecia com muitos,
ele então repetiria o processo até ser bem sucedido. Caso os pacientes
não mostrassem quaisquer sinais de sono ou entorpecimento, ele então
lhes asseguraria que o sono não era essencial e que a influência
hipnótica poderia ser exercida sem ele. Bernheim inspirou centenas de
médicos-hipnotistas famosos, tais como Von Schrenk, Noltzing, Babinski
e muitos outros. Charles Richet foi reconhecido como o introdutor do
método de indução com o pressionar dos polegares e das mãos juntas.
Seção 8. Jean Martin Charcot

Jean Martin Charcot, o famoso neurologista
francês, nasceu em 1825 e morreu em 1893. Era muito bem conhecido
pelos profissionais de medicina por tantas e variadas realizações, e
sua biografia é tão fácil de ser obtida que nenhum estudo detalhado a
seu respeito será dado aqui. Ele provavelmente foi o médico mais
famoso a adotar o hipnotismo naquela época e, além de seu trabalho com
o hipnotismo, era conhecido pelo banho de Charcot, pela doença de
Charcot, pela junta de Charcot, pela síndrome de Charcot, etc., bem
como pelo tipo de dente Charcot-Marie, e seu trabalho com a atrofia
muscular neuropática progressiva, de conhecimento de todos os
estudantes de medicina.
A Síndrome de Charcot-Weiss-Barber (síndrome do seio da carótida) e o
sinal Charcot-Vigouroux também são bastante conhecidos. Vários
cristais foram nomeados em homenagem a Charcot, incluindo os cristais
Charcot-Leyden, os cristais Charcot-Neuman e os cristais
Charcot-Robin. Apesar de sua grande fama no campo da medicina, ele
mergulhou no hipnotismo sem a costumeira pesquisa cuidadosa que
cercava seus outros trabalhos. Conseqüentemente, sua reputação
enfraqueceu quando suas teorias de que a hipnose era um estado
patológico que enfraquecia a mente foram mais tarde desaprovadas pela
Escola Nancy de Medicina. De fato, quando Charcot morreu, Babinski
denunciou muitas das curas de Charcot, afirmando que algumas foram na
realidade falsificadas, e outras invenções da imaginação de Charcot. O
amargo ataque de Babinski contra Charcot, mais do que qualquer outra
coisa, foi responsável pelo declínio do uso da hipnose na França. Este
declínio continuou até tempos modernos, com apenas algumas exceções,
tal como Pierre Janet e o Dr. Joseph Morlaas,
que usaram a hipnose até que esta fosse oficialmente introduzida nas
escolas francesas de medicina, em 1958.
Seção 9. Josef Breuer

Até a época de Breuer, a hipnose havia
primariamente sido usada para o alívio da dor em cirurgias, e esta de
acordo com o método de Liebeault, que simplesmente sugeria que os
sintomas se fossem. Entretanto, por volta de 1880, Breuer fez uma
descoberta acidental que mudou os métodos da hipnoterapia. Na verdade
esta descoberta não apenas mudou os métodos da hipnoterapia, mas na
realidade introduziu uma arte completamente nova em si, pois foi a
obra de Breuer que atraiu Freud e o direcionou aos métodos da
psicanálise que são tão comuns hoje em dia aos psiquiatras.
Breuer estava tratando uma paciente a qual chamou de Anna O..
O caso é longo e complexo, sendo bem conhecido de todos os estudantes
de psiquiatria. Durante uma parte da terapia, eles descobriram, para
grande agonia da paciente, (e Anna O. era uma paciente histérica com
muitos problemas e muito diferenciados) que ela não conseguia beber
água. Na verdade, não importava a intensidade da sede que ela sentia,
ela sentia que era uma impossibilidade física engolir água. Devido a
isso, ela sobreviveu por alguns meses comendo frutas aquosas e melões,
até que, durante uma sessão de hipnose, ela revelou num ataque de
raiva, como, para sua grande aversão, uma ex-governanta havia deixado
um cão beber água que estava num copo, em sua presença. Tão logo
acordou do transe, ela imediatamente pediu água a Breuer, esvaziando o
copo com facilidade. Isto fez com que Breuer concluísse que a simples
recordação das experiências traumáticas do passado (do cão bebendo
água num copo) foi responsável pela remoção dos sintomas. Depois de
chegar a esta conclusão, Breuer tentou então associar todos os
sintomas dos pacientes com experiências traumáticas no passado. Depois
de trabalhar com Anna O. por quase um ano, Breuer foi capaz de remover
seus sintomas de cegueira, paralisia, surdez, a contratura de seu
braço direito, sua falta de sensibilidade, tosse, tremores e outros
sintomas, apenas através da repetição dos transes que revelaram mais e
mais suas experiências do passado, que continham incidentes
traumáticos danosos.
Tal como Wolberg afirma em seu livro Medical Hypnosis,
“A importância da obra de Breuer jaz na mudança de ênfase na
terapia com hipnose, da remoção direta dos sintomas para o enfoque na
causa aparente desses sintomas".
Apesar de Janet ter chegado a esta mesma conclusão simultaneamente, o
crédito por esta descoberta foi dado a Breuer.
Seção 10. Dr. Eugene Azam

Azam, um professor da Faculdade de Medicina em
Bordeaux, e correspondente na Academia de Medicina em Paris, escreveu
em 1887 um livro sobre um caso de consciência dividida. Ele descreveu
em detalhes o caso de uma jovem, chamada Felita X., que o procurou
pela primeira vez durante o mês de junho de 1858. Ele percebeu muitos
fenômenos hipnóticos nesta paciente, fazendo algumas deduções
psicológicas que confirmaram muitas das conclusões de Braid. O
Professor Jean Martin Charcot (supra) escreveu o
prefácio do livro, elogiando muito a obra do Dr. Azam. Traduzido do
francês, dizia o texto:
“Na época de hoje, em que o Hipnotismo chegou e é agora a aplicação
regular deste método de descrição de doenças, que finalmente tomou seu
lugar entre os fatos da ciência positiva, seria injusto esquecer os
nomes daqueles que tiveram a coragem de estudar esta questão numa
época em que estava sob a desaprovação universal. O Dr. Azam foi um
dos pioneiros, sendo o primeiro na França. Ele buscou controlar,
através de sua experiência pessoal, os resultados anunciados por
Braid. A boa sorte de uma descoberta inesperada,
é verdade, foi-lhe favorável ao dispor-lhe a experiência de uma
paciente, que espontaneamente apresentou vários fenômenos que haviam
sido descritos por Braid. Mas, quantos médicos que estivessem no lugar
do Dr. Azam teriam passado por estes fatos interessantes sem se
deterem, quer por medo de serem confundidos por uma histeria jugular,
ou por medo de comprometerem suas reputações ao realizar estudos que
haviam sido desacreditados, ou simplesmente por seguir a preguiça
científica que nos desprovê do benefício de novas coisas no
desenvolvimento moderno? Os resultados do Dr. Azam não são apenas de
interesse históricos: esta análise redescobriu a parte mais importante
dos fenômenos somáticos e da anestesia psíquica, hiper-anestesia,
contratura e catalepsia, que aprendemos, desde que neste ano foram
apresentados, de acordo com uma determinação rigorosa, uma categoria
especial de indivíduos (pacientes). Seria interessante observar, a bem
da verdade, que pela escolha dos indivíduos e pela natureza dos
fenômenos produzidos, os casos clínicos do Dr. Azam pertencem à
hipnose histérica. É dito que esta forma de hipnose primeiro tomou seu
lugar na ciência e somente agora chegou até nós. Ela manifesta
sintomas tão característicos a ponto da pessoa mais cética não poder
duvidar de sua existência. Portanto, devemos convidar nossos eminentes
colegas a tomar parte no sucesso da obra ao qual ele contribuiu, após
termos registrado a pesquisa do Dr. Azam com aqueles da escola de
Salpêtrière.”
Azam enfrentou grandes dificuldades para remover a aura de mistério da
hipnose, e foi elogiado por Charcot por isso. O Dr. Heinz Hammerschlag
afirma em seu livro Hypnose und Verbrechen
que os estudos de Azam em Bordeaux, apesar de importantes, foram
importantes primariamente porque estes estudos atraíram a atenção de
Liebeault, que foi o primeiro a ser bem sucedido em dar a estes
pesquisadores uma novo ponto de vista. Ele esforçou-se para atribuir
os fenômenos da hipnose à influência psiquiátrica da sugestão, em vez
da influência do magnetismo, que havia antes sido tão popular na época
de Mesmer. Como Charcot pôde continuar a manter a afirmação ridícula
de que todos os assuntos hipnóticos eram "histéricos", face a face com
a pesquisa de Braid, e do lado oposto de sua boca elogiar o Dr. Azam
por esclarecer e reiterar as conclusões de Braid, é algo completamente
incompreensível.
Seção 11. Sigmund Freud

Até mesmo começar a tentar resumir a vida e a
obra de um gênio é naturalmente impossível. Da mesma maneira, escolher
incidentes específicos em sua vida e, ao descrevê-los, esperar que se
compreenda o raciocínio intricado da mente de Freud, seria tão
ridículo quanto descrever George Washington como "o garoto que cortou
uma cerejeira". Várias centenas de livros foram escritos sobre Sigmund
Freud, possivelmente o mais completo deles sendo The Life
and Work of Sigmund Freud, de Ernest Jones (1879 -
1958), em três volumes. Para uma compreensão completa de Freud, esta
obra em três volumes supera todas as outras, mas estando tal tarefa
além do escopo deste texto, devemos nos satisfazer com um pequeno
resumo da ligação de Freud com o desenvolvimento da hipnose.
Foi a obra de Breuer que atraiu Freud e que o
fez publicar seu famoso livro co-autorado por Breuer,
Studien uber Hysterie, que foi publicado em 1895. Breuer
e Freud concluíram corretamente que os sintomas histéricos são
desenvolvidos como resultado de experiências repressivas danosas, e
que se estas experiências danosas fossem novamente liberadas da mente
subconsciente por uma catarse mental, os sintomas histéricos seriam
eliminados. Breuer conseguiu isso através do uso da hipnose, mas
Freud, um hipnotista pobre, achou que a livre associação conjugada com
a psicanálise eram veículos através dos quais poderia realizar seu
trabalho de forma melhor. Parlour observou que, apesar de que Freud
menosprezou a "hipnose" formal, ele no entanto usou constantemente
muitas técnicas de hipnose, tais como "tocar a testa do paciente", "a
concentração da mente do paciente", "o relaxamento do corpo sobre um
sofá" e "o farto uso da imaginação". Este fato foi muito negligenciado
durante o tempo em que Freud viveu, atenção sendo dada às palavras de
Freud que nem sempre explicavam as ações do mesmo.
Foi durante este período que uma das idéias mais errôneas a respeito
da hipnose ganhou terreno, e que ainda hoje, infelizmente, é difícil
desalojar das mentes de muitos médicos e de milhares de leigos. Devido
à condenação da hipnose feita por Freud em favor da psicanálise, as
pessoas começaram a associar a hipnose com "sugestões diretas" (este
sendo apenas um dos aspectos do hipnotismo). Por conseguinte, o
público em geral e os leigos também começaram a pensar em termos de
psicanálise versus sugestão direta. O que não foi suficientemente
explicado foi que a ciência e arte do hipnotismo contém tanto análise
quanto sugestão, e quando corretamente aplicada não apenas fraciona o
problema em seus componentes para análise, mas recompõe o indivíduo
novamente com uma Síntese. A psicanálise convencional, entretanto, com
sua falta de orientação diretiva, elimina inteiramente a última parte
mencionada acima e torna a primeira delas lenta, incômoda e muitas
vezes ineficaz. Todavia, devido ao grande brilho e popularidade de
Freud, as palavras “associações livres” e “psicanálise” tornaram-se as
senhas da época, e a hipnose novamente mergulhou na obscuridade.
Alguns especialistas, tal como Pierre Janet da França, Bramwell e Moll
da Grã-Bretanha, Morton Prince e McDougall dos Estados Unidos, e
Pavlov na Rússia, continuaram a fazer uso do hipnotismo. A maioria dos
neurologistas (naquela época, a maior parte das doenças mentais era
investigada do ponto de vista da “neurologia”) foi imediatamente
influenciada pela teoria e métodos de Freud.
Freud era um homem fascinante. Ele nasceu no dia 6 de maio de 1856, na
cidade morávia de Freiberg, uma pequena e antiga cidade industrial que
então pertencia ao Império Austro-Húngaro. Sua mãe, Amália, por quem
teve um forte apego edipiano, era vinte anos mais nova que seu pai
Jacob. A família mudou-se para Viena, onde viveu sua vida. Seu pai
morreu em outubro de 1896, quando Freud tinha quatro anos, afetando-o
profundamente, o que expressou numa carta que escreveu ao seu amigo, o
Dr. Fliess.
A família de Freud era judia, mas Freud ignorava as comemorações dos
judeus, e em vez disso celebrava o Natal e o Ano Novo porque "era mais
fácil". Este tipo de comportamento parece muito incomum para um não
conformista, mas como afirmamos acima, Freud era na realidade um
paradoxo, dizendo algumas coisas e praticando outras. Ele
constantemente afirmava, por exemplo, que era um cientista de primeira
linha, que buscava sempre a verdade e somente a verdade. Até sua morte,
ele continuou a acreditar na teoria de Lamarch de que características
pessoais adquiridas poderiam ser herdadas, algo que nenhum verdadeiro
cientista da época acreditava mais, da mesma forma que não acreditava
que o mundo era plano. Freud também interessou-se pelo ocultismo e
pela telepatia, e abertamente afirmava sua crença neles, apesar de
nunca ter publicado obras deste teor. Freud acreditava sobremaneira na
magia dos números, e seu amigo íntimo William Fliess, mencionado acima,
afirmou que Freud acreditava que coisas importantes aconteciam aos
seres humanos em ciclos de 23 a 28 dias. Ele previu sua própria morte
na idade de 61 ou 62 anos, e ficou um tanto quanto desapontado depois
de ter passado por essa idade, elevando assim sua predição para 85
anos e meio, a idade em que seu pai e seu meio irmão morreram. O filho
mais velho de Freud, Jean Martin Freud, cujo nome lhe foi dado em
homenagem a Charcot, o qual Sigmund admirava tanto, publicou um livro
relativamente novo sobre a vida doméstica de Freud como pai e como
homem. Freud conheceu sua esposa em abril de 1882, e apaixonou-se à
primeira vista, apesar de não ter se casado antes de ter prestado um
mês de serviço em manobras do Exército Austríaco em 1886, quando foi
promovido de Primeiro Tenente a Capitão.
Freud trabalhava como especialista em doenças nervosas, e era um
professor iniciante na Universidade de Viena quando Jean Martin nasceu.
Ele vivia em Suenhaus, frente a Ringstrasze, mas escreveu muitos de
seus melhores livros em cenários naturalistas. A Interpretação dos
Sonhos, provavelmente um dos livros mais famosos de Freud, foi escrito
numa vila em Berchtesgaden, uma linda estância situada no alto das
montanhas da Bavária, que mais tarde se tornaria famosa como o bem
guardado refúgio de Adolph Hitler.
Freud estava sempre imaculada e cuidadosamente vestido, mesmo durante
os últimos dezessete anos de sua vida, nos quais dolorosamente
submeteu-se a uma operação após a outra por causa dos cânceres
incuráveis que tanto o incomodaram. Ele manteve seu senso de humor
mesmo após a maior parte da estrutura de sua boca, pálato e maxilar
ter sido removida, e de ter sido forçado a usar uma prótese monstruosa
para poder fechar a abertura entre a cavidade nasal e a garganta para
poder falar. Fraco e incapaz de falar, exceto em seu alemão nativo (apesar
de que antes falasse bem o francês e o inglês), disse certa vez à
cantora francesa Yvette Guilbert: "Meine Prosthese Spricht Keine
Franzosisch" (Minha prótese não fala francês).
Freud submeteu-se a um total de 33 operações, incluindo uma operação
de esterilização, a qual esperava que de alguma maneira mudaria a
configuração hormonal de seu corpo, evitando que o câncer se
espalhasse. Ele fugiu para a Inglaterra em 1938 para escapar de
Hitler, e aos 82 anos de idade, em Londres, recuperou-se o suficiente
para fazer quatro tratamentos de análise por dia. Freud odiava as
drogas e tomava apenas aspirina ocasionalmente. Em fevereiro de 1939
seu câncer finalmente o encurralou, sendo considerado inoperável e
completamente incurável na época, e, no dia 21 de setembro daquele ano,
pediu ao seu médico, o Dr. Max Schur, que lhe desse um sedativo. "É
somente tortura agora, e não faz mais qualquer sentido", disse Freud,
e dias depois, com 83 anos de idade, ele morreu. Sua filha Anna
permaneceu ao seu lado durante sua longa enfermidade, mantendo-o
confortado. "O mais importante," disse o biógrafo Jones (que talvez
foi o psicanalista de língua inglesa número um em sua época), "é a
crescente consciência que as pessoas têm de serem movidas por forças
obscuras dentro de si mesmas, as quais não conseguem definir. Poucos
pensadores hoje em dia poderiam afirmar possuir um conhecimento
completo de si mesmos, ou de que o que estão conscientemente cientes
engloba o total de sua mentalidade, e este reconhecimento, com todas
suas conseqüências formidáveis para o futuro das organizações sociais,
nós devemos acima de tudo a Freud. O principal inimigo e perigo do
homem é sua própria natureza incontrolável e as forças negras
enclausuradas em seu interior. Se nossa raça tiver sorte de sobreviver
por outros mil anos, o nome de Sigmund Freud será lembrado como aquele
do homem que foi o primeiro a averiguar a origem e a natureza destas
forças e que apontou a maneira de obter algum controle sobre elas".
Seção 12. Milne Bramwell
O nome de Bramwell é mais lembrado pelo seu
clássico texto Hypnotism, It's History, Practice and
Theory, que até hoje permanece como um dos mais
refinados livros escritos sobre o hipnotismo. Em seu livro, ele afirma
que sua primeira introdução ao assunto foi indiretamente devida ao Dr.
James Esdaile, pois Esdaile deixou a Índia e
viveu durante algum tempo em Perth, cidade natal de Bramwell. Muitos
dos experimentos de Esdaile foram mais tarde reproduzidos pelo pai de
Bramwell, que também era médico. Quando menino, Bramwell testemunhou
muitos destes experimentos, os quais o impressionaram muito. Ele era
um ávido leitor e estudante em Edinburgo, quando o Professor John
Hughes Bennett novamente chamou sua atenção para o hipnotismo.
Depois de deixar Edinburgo, Bramwell ocupou-se com a prática médica em
geral, e a hipnose ficou quase esquecida até ficar sabendo que esta
havia sido restaurada nos departamentos da Salpêtrière. No dia 28 de
março de 1890, ele fez uma demonstração da anestesia hipnótica a uma
grande audiência em Leeds. Esta foi relatada no British Medical
Journal e no Lancet, e recomendações de pacientes
tornaram-se tão numerosas que ele abandonou a prática geral e limitou-se
à prática do hipnotismo. Bramwell foi de certa forma capaz de evitar a
maior parte da grande oposição e deturpação que haviam sido
perpetradas contra médicos que anteriormente se associaram com esta
ciência. Bramwell provavelmente ficou mais famoso por sua obra sobre a
hipnose clínica na medicina e na cirurgia. Entretanto, ele também
escreveu sobre teorias da hipnose, hipnose em animais, o gerenciamento
de experimentos com hipnose, fenômenos experimentais da hipnose, e até
mesmo sobre assuntos ocultos, tais como o espiritualismo, a
clarividência e a telepatia.
Moll, um contemporâneo inglês, é igualmente famoso por seu livro sobre
a hipnose. O livro de Moll, registrado alguns anos antes do de
Bramwell, tinha uma estrutura um pouco diferente e é digno de nota por
sua dissertação sobre os aspectos legais da hipnose, assunto em que
Bramwell não tocou, mas que de forma liberal é citado por mim em um
livro anterior, Legal Aspects of Hypnosis, o
primeiro volume completo sobre o assunto já escrito. Moll demonstrou
como as sugestões cotidianas diferem da hipnose, e também deu a
primeira referência à hipnose desperta. Ele antecipou os estudos de
Erickson sobre o estado pós-hipnótico, e também investigou a relação
entre o hipnotista e o paciente. Seu livro foi por muito tempo
considerado uma das melhores introduções possíveis ao estudo da
hipnose, sendo uma das primeiras peças da literatura que objetivamente
separou a hipnose dos elementos místicos que a cercam.
Seção 13. Outros Médicos da Época
O primeiro uso documentado da hipnose utilizada
como anestésico ocorreu no dia 12 de abril de 1829, quando Jules
Cleznet, um cirurgião francês, realizou uma operação de mama. Os
primeiros usos documentados da hipnose na América aconteceram em 1843,
um ano depois de Braid ter cunhado o termo, em Nova York, Ohio,
Illinois e Missouri, por Doane, Dugas e outros. A contribuição de
Crile para a literatura da hipnose foi o fato de ter reconhecido que
mesmo apesar de um paciente estar "inconsciente" durante a anestesia
por inalação, a maior parte de seu cérebro ainda permanece acordada, e
que os impulsos nervosos ainda podiam alcançar o cérebro, produzindo
depressão cerebral e outras manifestações indesejáveis. Dupuytren, o
famoso cirurgião francês que é mais conhecido por sua obra sobre as
contraturas, afirmou que a "dor mata como a hemorragia", e de fato
muitos pacientes daquela época preferiam a morte em vez da dor extrema.
William Kroger, um obstetra hipnotista bem conhecido, relatou o
declínio do uso da hipnoanestesia depois do desenvolvimento dos
anestésicos químicos.
PARTE C: HISTÓRIA RECENTE
Seção 1. Cientistas Contemporâneos na Área
Uma nova era da hipnose teve início com a
Primeira Guerra Mundial. O renascimento foi primariamente devido a uma
multiplicidade de casos de paralisia e amnésia de origem psicogênica,
e o fato de que poucos psiquiatras estavam disponíveis. Da Grã
Bretanha veio Hadfield, que originou o termo Hipnoanálise,
significando o uso da regressão de idade para descobrir as
experiências danosas e então revivê-las sob hipnose para produzir
catarse mental. O advento da hipnose em nossa época fez surgir muitos
novos especialistas, incluindo muitos hipnotistas de palco. Lewis R.
Wolberg, um professor clínico assistente de psiquiatria do New
York Medical College, escreveu talvez o mais extenso tratado
sobre a hipnose médica em dois volumes, publicado nos Estados Unidos.
Em 1955, a British Medical Association oficialmente sancionou
o ensino da hipnose em todas as escolas de medicina, dando início à
organização de grupos e sociedades de ensino. William J. Bryan Jr.,
que tornou-se seu primeiro presidente, fundou o Instituto
Americano de Hipnose no dia 4 de maio de 1955. Foi fundado pela
razão de que até aquela época não havia nenhum corpo educacional
devotado exclusivamente a promover todas as fases da hipnose na
medicina e na odontologia, e o Instituto foi fundado para preencher
esta lacuna. Desde então este cresceu até se tornar a instituição
educacional mais respeitada do mundo devotada exclusivamente ao ensino
da hipnose na medicina e na odontologia aos médicos e dentistas de
todo o mundo. Outros Presidentes da organização incluem os peritos
daquela época, incluindo Butters, Moss, Sloan, Bryan, Hedge, Boswell e
McCall.
Indubitavelmente, o mais famoso hipnotista dental contemporâneo é o
Dr. H. Joshua Sloan, ex-presidente e membro do Instituto Americano
de Hipnose. Ele foi responsável pelo estabelecimento do primeiro
curso universitário de hipnose, lecionando nele durante muitos anos.
Autor de Introductory Information for Dentists in Hypnosis,
e de Goals in Dentistry, ocupou vários
cargos, incluindo o de Presidente da Academy of Applied Psychology
in Dentistry e de Presidente do Instituto Americano de
Hipnose. Mais conhecido por sua pesquisa sobre o refinamento de
várias técnicas de indução e de aprofundamento, e por sua extensa obra
no campo da Semântica Geral, ele atende na Madison Avenue, em Nova
York.
Aaron A. Moss, o terceiro presidente do Instituto Americano de
Hipnose, é mais conhecido por sua clássica obra
Hypnosis in Dentistry, o livro mais completo sobre o
assunto publicado até hoje [janeiro de 1963]. Ele foi responsável pela
primeira filmagem do uso da Hipnose na Odontologia.
O Dr. Garland Fross, de South Bend, Indiana, o Dr. Tom Wall, de
Seattle, Washington, o Dr. Jack Bart, de Riverside e Beverly Hills,
Califórnia, e o Dr. Martin Cousins, de Los Angeles, Califórnia, se
distinguiram no campo da Hipnodontia. Todos estes homens participaram
de vários cursos ministrados pelo Instituto na capacidade de membros
da Faculdade, e todos são Membros da Sociedade.
O Dr. Fross, uma lenda em sua própria comunidade e Comandante no
Departamento de Odontologia da Marinha, muito realizou para ensinar
aos Dentistas Oficiais da Marinha e a milhares de dentistas civis, a
respeito da ética e do lugar correto da Hipnose na Odontologia. Ele
escreveu vários artigos e documentos científicos sobre o assunto e,
com a aprovação da sociedade de odontologia de sua cidade, levou ao ar
através do rádio, em certa ocasião, informações ao público sobre o
assunto, num programa de rádio público da sociedade de odontologia. Já
o Dr. Wall por várias vezes deu palestras sobre a Hipnodontia em
várias Universidades e em vários encontros de médicos e de dentistas,
além de ter escrito um panfleto explicando a Hipnose na Odontologia
aos pacientes.
O Dr. Jack Bart realizou palestras em lugares tão distantes quanto
Paris, na França, e em Honolulu, no Havaí, sobre o assunto da Hipnose
na Odontologia, e a tem praticado durante toda a sua carreira de
dentista. O Dr. Cousins não somente é membro da Faculdade do Instituto
Americano de Hipnose, mas regularmente ministra aulas sobre
Hipnodontia na Beverly Hills Hypnodontic Society, e tem
ensinado a médicos e dentistas as técnicas apropriadas da
hipnoanestesia. Ele é uma autoridade de renome mundial neste assunto,
especialmente no que tange à Odontologia.
Seção 2. Dr. Sydney Van Pelt

Uma história da hipnose não estaria completa sem
mencionar o primeiro especialista no campo da hipnose médica de nossa
época. O Dr. Sydney J. Van Pelt, um médico australiano que estabeleceu
sua prática em Londres, Inglaterra, há cerca de quinze anos, foi o
primeiro médico hipnotista do mundo moderno a trabalhar em tempo
integral. Limitando sua prática ao uso da hipnose na medicina, o Dr.
Van Pelt construiu uma invejável reputação numa época em que o resto
do mundo estava muito desconfiada da nova modalidade. Ele tornou-se o
primeiro presidente vitalício da British Society of Medical
Hypnotism, e o Editor do British Journal of Medical Hypnotism,
a mais antiga e mais respeitada revista no assunto ainda em publicação.
O British Journal of Medical Hypnotism sob sua direção desde
o início, viveu mais longamente do que o Zoist
de Elliotson, e é hoje o líder inquestionável neste campo em todo o
mundo. Através do British Journal e da revista da
American Institute of Hypnosis, para a qual escreveu vários
artigos, o melhor da literatura científica sobre o assunto do
hipnotismo é disseminado para os médicos de língua inglesa de todo o
mundo. O Dr. Van Pelt participou como palestrante do primeiro curso
internacional de hipnotismo médico, que aconteceu em novembro de 1959,
a bordo do navio M. S. Kungshohm, num cruzeiro ao Caribe, e, com a
minha exceção, é talvez hoje o único médico especialista em hipnose em
tempo integral ainda vivo. Ele escreveu mais livros sobre a hipnose do
que quaiquer outros quatro autores combinados (se eu não for utilizado
na combinação), e possui tantos artigos publicados sobre o assunto que
são muito numerosos para contar. Se existe um homem de nossa época que
se elevará à grandeza através da hipnose médica, este certamente é o
Dr. S. J. Van Pelt, a primeira autoridade no assunto em todo o mundo.
Seção 3. O Hipnotismo na França
A formação do Instituto Americano de Hipnose
e a ação simultânea da Associação Médica Britânica em aprovar
a Hipnose em 1955, fez com que o Conselho de Saúde Mental da
Associação Médica Americana conduzisse um estudo exaustivo de três
anos, culminando num endosso oficial da hipnose pela Associação Médica
Americana em sua reunião de junho de 1958. Este fato foi relatado em
detalhes no Journal of American Medical Association, e um
texto do endosso unânime, pela Casa de Delegados da Associação Médica
Americana pode ser encontrado no A. M. A. Journal Vol. 168, No 2,
September 13, 1958. A Casa de Delegados sem nenhum voto contrário
aceitou o relatório do Conselho de Saúde Mental aprovando a Hipnose.
Logo após este acontecimento, o governo francês interessou-se
novamente pelo Hipnotismo. Devido à condenação feita por Babinski dos
métodos e dos tratamentos de Charcot, apesar de obviamente falsa, o
hipnotismo gozou de uma reputação extremamente ruim na França, e por
conseqüência ninguém era sequer permitido a tocar no assunto da
hipnose em qualquer reunião médica em Universidades, pois a Academia
Médica Francesa oficialmente proibiu a discussão do tema em 1840, e o
assunto permaneceu como um tabu até 1958, época em que a Universidade
de Medicina de Sorbonne, de Paris, convidou-se para reintroduzir o
assunto na França em uma palestra para cerca de 200 médicos franceses
famosos, no Hospital Psiquiátrico St. Anne, em Paris. A palestra foi
realizada no auditório do Hospital Psiquiátrico, e a recepção foi tão
entusiasmada que fiquei durante uma hora e meia a mais do previsto
respondendo perguntas e realizando demonstrações, incluindo a
demonstração de hipnose realizada através de um intérprete, que foi a
primeira exibição médica do tipo conhecida no mundo. Por causa desse
grande sucesso, o vice-prefeito de Paris recebeu-me em seu gabinete
com o tradicional brinde de champanhe, na ausência do Prefeito que
estava em Nova York numa missão. O sucesso dessa iniciativa levou ao
convite de retornar e conduzir um curso completo de uma semana sobre
hipnose, na primavera de 1960. The British Journal of Medical
Hypnotism Vol 10, No. 4 descreveu este importante evento de
ensino da hipnose médica assim:
UMA ARTE ANTIGA RETORNA À FRANÇA
Reportagem sobre uma palestra ministrada
pelo Dr. William J. Bryan Jr., (USA)
O fato de a Associação Médica Britânica ter dado
uma aprovação não qualificada da hipnose três anos atrás, levou a
Associação Médica Americana a imediatamente instruir seu Conselho de
Saúde Mental a investigar o valor da hipnose na medicina. Esta
investigação, que durou três anos, levou ao endosso unânime da hipnose
pelo Conselho de Saúde Mental da Associação Médica Americana em junho
passado. Apesar do grande interesse mundial na hipnose, relativamente
pouco tem sido dito ou feito na França sobre a hipnose nos últimos
anos. O Dr. Pierre Pichot, professor de psiquiatria na faculdade de
medicina da Universidade de Paris, e Chefe do corpo clínico do
Hospital Psiquiátrico St. Anne daquela cidade, deu algumas possíveis
razões para isto. "Houve uma época", disse, "durante os dias de Mesmer
e Charcot, em que a hipnose gozava de muitos seguidores na França. De
fato, a França foi realmente o berço do hipnotismo, pode-se dizer.
Entretanto, depois que Babinski, aluno de Charcot, ter amargamente
denunciado o trabalho de Charcot depois de sua morte, a hipnose ficou
com uma má reputação na França, e dessa maneira permaneceu até hoje".
Foi provavelmente por causa do desejo dos Profissionais de Medicina da
França de novamente renovar seu interesse pela hipnose que os levaram
a convidar o Dr. William J. Bryan Jr., dos Estados Unidos da América,
a falar sobre o assunto. Ele provavelmente é o primeiro médico, em
muitos anos, a ser permitido falar sobre o assunto da hipnose num
encontro de nível profissional em uma universidade. No entanto, a
Faculdade de Medicina da Universidade de Paris o acolheu com grande
cortesia e honra. Eles lhe pediram que falasse a um grupo de
profissionais no dia 11 de setembro de 1958, no Hospital Psiquiátrico
de Ste. Anne, Rue Cannibis, em Paris. Enquanto na França, ele
certamente recebeu um tratamento real. Foi recepcionado pelo governo
francês, pelos profissionais franceses e pelo próprio povo francês.
"Naturalmente seria impossível agradecer todas essas pessoas
maravilhosas aqui", afirmou, "mas atenção especial com certeza deveria
ser dada ao Monsieur Pierre Taintiger, o vice-prefeito de Paris, que
pessoalmente deu-me as boas vindas a Paris com o tradicional brinde de
champanhe parisiense em seu gabinete particular. Devo também fazer
menção especial ao Dr. Pierre Deniker e ao Dr. Pierre Pichot, que
foram tão gentis comigo durante minha estadia em Paris. Miss Ellen
Terry, uma fabulosa senhorita francesa que foi diretora do exército
feminino da França, e que agora é Chefe dos Serviços de Informação da
Embaixada Americana, recebe o meu apreço especial por prover seu
valioso tempo ajudando-me a traduzir meu discurso do inglês para o
francês (francês que os franceses pudessem compreender)."
O discurso aconteceu no dia 11 de setembro de 1958, no auditório do
Hospital Psiquiátrico de Sainte Anne, usando o novo sistema público de
conferência deles pela primeira vez, para uma audiência de cerca de
200 médicos de todas as partes do país, além de um da Grã Bretanha. O
discurso de meia hora foi bem recebido por um público que manteve o
discursante presente por mais uma hora e meia com perguntas
pertinentes. De fato, o discurso foi tão bem recebido que o Dr. Bryan
decidiu fazer uma pequena demonstração para ilustrar alguns dos pontos
de seu discurso. Portanto, com a ajuda do Dr. Pierre Pichot como
intérprete, alguns indivíduos foram colocados sob hipnose. Anestesia e
outros fenômenos da hipnose foram produzidos e o público foi generoso
em sua recepção dessa antiga arte que retorna à França.
* * * * *
Depois dessa descrição do discurso está o texto do discurso em si.
Depois disso está o texto de uma carta do Dr. Pierre Pichot
agradecendo o Dr. Bryan por sua vinda ao hospital.
* * * * *
Texto do discurso de 11 de setembro de 1958, no
Hospital Psiquiátrico de Ste. Anne, Rue Cannibis, Paris:
Avanços Recentes da Hipnose nos Estados Unidos
Permitam-me, por favor, dizer-lhes o quanto
sinto-me honrado por ter sido convidado a discursar para vocês, e
permitam-me dizer-lhes muito humildemente que não tenho a intenção de
fazer desta uma palestra de uma só via. Ao invés disso, solicito uma
troca de idéias entre nossos dois países como um método para o avanço
mundial do conhecimento científico sobre o assunto em pauta. Seria
certamente presunçoso de minha parte falar-lhes a respeito do
Hipnotismo, pois vocês tiveram líderes tais como Mesmer, Charcot,
Bernstein e Janet. Para começar, foi vosso grande país que levou o
mundo a reconhecer a arte, e minhas humildes contribuições nesse campo
são apenas aquelas de um redecorador comparadas àquelas do arquiteto
inicial. Entretanto, devido ao fato de vocês estarem interessados nas
tendências dos acontecimentos nesse campo do hipnotismo na América,
devo cobrir alguns pontos dos quais vocês podem não ter conhecimento.
Primeiro: nos últimos cinco anos, uma revolução tem
acontecido em meu país em relação aos métodos de ensino em escolas de
pós-graduação. Devido ao fato de a maioria dos médicos não poderem
deixar suas ocupadas tarefas, quer para tirar férias, quer para uma
educação de pós-graduação todo ano, e porque a educação de
pós-graduação é um gasto que pode ser deduzido e não taxado pelo
governo, muitos médicos começaram a combinar férias com o estudo de
pós-graduação. Isto tem levado os estudos médicos de pós-graduação das
salas de aula para navios de cruzeiro e para hotéis em estâncias.
Desde a grande onda de utilização do hipnotismo na prática da medicina
e da odontologia, nos últimos cinco anos surgiram não menos que quatro
grupos principais de ensino do hipnotismo a médicos e dentistas, e
nenhum destes grupos limita seu ensino ao hospital ou à faculdade. Na
realidade, acontece o contrário. Existe o grupo de Dave Ellman, os
Seminários de Hipnose, Simpósios de Hipnose e o Instituto Americano de
Hipnose. Como Diretor Executivo do Instituto, posso lhes dizer que
agora, como nunca antes, o praticante médio geral nos Estados Unidos,
bem como sua contraparte na odontologia, está usando a hipnose como
uma ferramenta terapêutica e de diagnóstico em sua prática. Quando
consideramos que ensinamos de cinqüenta a cem novos doutores todo mês,
vocês podem concluir que o uso desta arte está se espalhando
rapidamente pelo país.
Segundo: Somente neste mês de junho a Associação Médica Americana
aprovou oficialmente e endossou o ensino da Hipnose nas Universidades
de Medicina e o uso da Hipnose como um método aprovado para tratar
pacientes. Este foi um grande passo no avanço do hipnotismo em meu
país.
Terceiro: O estabelecimentos de novas revistas clínicas e de
novas pesquisas experimentais neste país, juntamente com associações
como a Associação Profissional do Instituto Americano de Hipnose, a
Sociedade Americana de Hipnose Clínica e a Sociedade de Hipnose
Clínica e Experimental.
Quarto: As pessoas mesmo, tendo ouvido o que pode ser feito
com a hipnose, estão perguntando cada vez mais aos seus médicos a
respeito de seu uso em todos os tipos de doenças.
Estes quatro pontos, portanto, são responsáveis, mais do que qualquer
outra coisa, pelo rápido crescimento do uso da hipnose na prática da
medicina e da odontologia nos Estados Unidos.
Agora, provavelmente vocês estão querendo saber o que nós ensinamos em
nossos cursos de hipnose para médicos e dentistas. Vocês podem achar
interessante nosso curso de três dias para iniciantes. O curso é
exclusivo, é claro, para médicos e dentistas. Nosso curso consiste de
palestras, filmes, demonstrações, períodos em laboratório e sessões
práticas bem supervisionadas. Esperamos que cada aluno demonstre sua
habilidade para usar a hipnose antes do término do curso de três dias.
Estes cursos são ministrados em fins de semana. História, sugestões,
teoria, e gerenciamento do transe cobrem o primeiro dia. Perigos,
concepções erradas, material clínico, crianças, e auto-hipnose cobrem
o segundo dia, e no terceiro dia os grupos são divididos entre médicos
e dentistas para instrução em suas especialidades. Este é o programa
de nosso curso para principiantes.
Em que campo achamos que a hipnose tem mais valor? De maneira
contrária, a hipnose parece ser de maior valor onde nenhum outro
tratamento funcionou muito bem. No diagnóstico: onde todos os outros
métodos falharam, um histórico completo e correto pode ser obtido
usando-se técnicas de regressão sob hipnose. Eu chamei a atenção à
importância disto em meu artigo publicado na edição corrente do
British Journal of Medical Hypnotism. Na
medicina: as causas profundamente enraizadas do alcoolismo, da
enurese, da asma, do eczema, do prurido constante, e de muitas
neuroses e psicoses podem ser descobertas através de cuidadosa
hipnoanálise. E cirurgia: provavelmente o uso menos importante da
hipnose é para fins de anestesia geral, e provavelmente o uso
importante é obter as maravilhosas recuperações pós-operatórias sem
náusea, quando a hipnose é utilizada.
A hipnose tem encontrado seu uso mais popularizado na obstetrícia e na
ginecologia, pois hoje em dia existem muitas jovens que desejam
experimentar o parto sem dor, além de desejarem permanecer totalmente
conscientes e assistir o nascimento de seus bebês. Esta é uma
experiência que testemunhei ser maravilhosa e estimulante para as
jovem mães, sendo uma experiência de que elas sempre se lembrarão e
que guardarão no coração. Uma experiência prazerosa não pode acontecer
quando a mãe é entupida com grandes quantidades de sedativos e drogas
alucinatórias. Na odontologia, o controle dos engasgos, do bruxismo e
a cooperação do paciente obtida com a hipnose são nada menos do que
miraculosos.
Os perigos do uso da hipnose são realmente poucos e consistem em sua
maioria no esquecimento da remoção das sugestões, perigos de sugestão
literal, e perigos ao médico devido a interpretações erradas por parte
do paciente.
Por último, gostaria de discutir alguns dos projetos de pesquisa que
no momento estão em andamento no programa do Instituto. Estamos
experimentando o uso da hipnose para crescer os seios de mulheres
simplesmente através da sugestão. Oito em cada nove casos tem mostrado
uma melhora definitiva. Estamos tentando também ver se o sexo de uma
criança que ainda não nasceu pode se determinado questionando o
subconsciente sob hipnose. Nenhum resultado foi ainda obtido. Estamos
usando a hipnose em relação à melhora da habilidade no funcionamento
dos sentidos; i.e., surdez e cegueira. A hipnose também está sendo
usada em relação ao novo processo de Mobilização do Estribo no ouvido,
tanto para anestesia operatória quanto para testes de audição.
O acima, portanto, abrange resumidamente o campo da hipnose na América
nos dias de hoje (1958), mas muitos outros projetos interessantes
estão a caminho. Permitam-me, novamente, agradecer-lhes pela honra de
ter aqui comparecido. Eu preferiria responder quaisquer questões em
inglês, pois meu francês é muito limitado. Mais uma vez obrigado.
* * *
Texto da carta do Dr. Pierre Pichot
Docteur Pierre Pichot
Professor Agrégé a la Faculté de Médicine
24, Rue des Fosses Saint-Jacques, Paris V
18 de outubro de 1958
Dr. William J. Bryan Jr. M.D.
1204 B Street, P.O. Box 738
Sparks, Nevada, U.S.A.
Caro Dr. Bryan:
Foi um grande prazer tê-lo encontrado em Paris, e nossos colegas aqui
apreciaram muito sua apresentação bem estimulante da hipnose. Estou
certo de que a hipnose tem um futuro importante na área da terapia
psiquiátrica, provavelmente em outras áreas também, e tenho certeza de
que você estimulou o interesse neste país.
Sinceramente,
Dr. Pierre Pichot
______________________________________
(O artigo acima foi reimpresso do British Journal of
Medical Hypnotism, com sua generosa permissão)
Nenhuma história do hipnotismo na França estaria
completa sem mencionar o primeiro médico hipnotista francês, o Dr.
Joseph Morlaas, chefe da Clínica Neurológica de Salpêtrière. O Dr.
Morlaas participou na Faculdade do Instituto Americano de Hipnose ao
ministrar o primeiro curso sobre Hipnose Médico-Dental na França desde
1840. Este aconteceu em 1960 no Hotel Claridge em Paris, sob os
auspícios do Instituto Americano de Hipnose.
PARTE D: SUMÁRIO
Isto traz a história da hipnose até nossos tempos
modernos. Desde 1958, o Instituto já ofereceu mais de 15 cursos
diferentes em Hipnotismo em todas as maiores cidades dos Estados
Unidos e no exterior. Literalmente milhares de médicos e dentistas
foram introduzidos a esta importante arte da medicina. Em 1958, a
Life Magazine estimou em 250 o número de médicos e dentistas
qualificados a utilizar a hipnose em sua prática. É até duvidável que
houvesse esse número; mas assumindo que assim fosse, nos últimos
quatro anos, até 1962, devido ao diligente programa de ensino do
Instituto Americano de Hipnose, existem agora cerca de 7.500 médicos e
dentistas nos Estados Unidos totalmente qualificados a utilizar a
hipnose em suas práticas, e assim estão ativamente procedendo. Isto
representa um aumento de 3.000% comparado a 1958. Cerca de 44 mil
operações foram realizadas em 1960 sob hipnose, sem uma única morte
anestésica. Em 1961, 52 mil foram realizadas e 68 mil em 1962. Com o
tremendo aumento da utilização da hipnose por médicos de todas as
especialidades, o hipnotismo médico, tal como a radiologia, começou a
ser uma especialidade em si, e os médicos que ainda não sabem como
utilizá-la são cada vez mais rotulados como "doutores de carroça",
e logo ver-se-ão confrontados por processos por negligência
profissional devido à falta de conhecimento que deveriam possuir sobre
o assunto.
Talvez o maior progresso e avanço foi feito no campo da psiquiatria,
onde técnicas demoradas e cansativas de psicanálise que duram cinco ou
seis anos ou até mais, foram suplantadas por métodos rápidos,
específicos e muito mais eficazes no tratamento das mesmas doenças,
através da hipnoanálise. A Pesquisa Médica Moderna tem definitivamente
provado que o tempo necessário para uma psicanálise completa pode
agora ser reduzido de seis anos para aproximadamente três meses ou
menos, através do correto uso das técnicas hipno-analíticas tais quais
ensinadas pelo Instituto. Este fato é extremamente importante quando
consideramos o relatório da Comissão Conjunta de Doença e Saúde Mental
ao Congresso dos Estados Unidos em 1961. Afirmou-se neste relatório
que "não mais de 20% dos 277 hospitais de Saúde Mental participaram
dos modernos avanços planejados para torná-las instituições de
tratamento, em vez de instituições de custódia!"
Tal como o tratamento da sífilis foi quase que completamente
transferido da prática do dermatologista para aquela do clínico geral,
devido ao desenvolvimento da penicilina e de outros antibióticos,
assim também o tratamento de doenças psico-neuróticas e
psicossomáticas, por causa dos avanços conseguidos na hipnose médica,
está progressivamente tornando-se domínio do médico de família, com a
indicação de casos difíceis ao médico hipnotista. Isto é assim porque
agora, através do uso da hipnose, este tratamento não mais é complexo
ou complicado como costumava ser sob outros métodos de tratamento
ultrapassados. Nos dias em que se tratava a pneumonia através de
anti-soros específicos, um especialista na área era freqüentemente
necessário, e no entanto, hoje em dia o clínico geral americano trata
a maioria dos casos de pneumonia com algumas injeções de penicilina,
somente indicando casos especializados ou complicados ao médico
internista.
O Instituto Americano de Hipnose também possui seus marcos de
progresso. Celebrando seu oitavo aniversário, o Instituto tem sido
responsável pela educação de milhares de médicos e dentistas no campo
da hipnoterapia, e estabeleceu o único serviço de referência de seu
tipo em todo o mundo. Hoje em dia, qualquer pessoa que queira
encontrar um médico ou um dentista próximo à sua casa, que esteja
qualificado a utilizar a hipnose, necessita apenas contatar o
Instituto Americano de Hipnose; e ela receberá nome, endereço e número
de telefone do médico ou do dentista qualificado em sua cidade.
No final de 1961, outra novidade na hipnose médica teve início, quando
a primeira turma de advogados aprendeu a hipnose médica, não com o
propósito de praticar medicina, mas para que possam possuir um
conceito inteligente dos fenômenos ao lidar com eles nos tribunais em
casos de negligência médica. Eles poderia assim reconhecer quando a
prática da hipnose médica por um médico competente pode ser de valor
para eles ou para seus clientes. (Veja-se meu livro entitulado
Legal Aspects of Hypnosis, 1962, Charles C.
Thomas). Existe um grande campo relacionado a Hipnose e a Lei, a
superfície da qual nem sequer começou a ser arranhada.
Resumindo estes grandes novos passos da Hipnose e da Hipnoterapia,
Wolberg com muita aptidão afirma: "a história da hipnose demonstra
conclusivamente que esta não é uma causadora de milagres, mas com a
exceção de afirmações extravagantes feitas por alguns de seus
aderentes, esta é uma ferramenta muito importante e muito útil".
Esta afirmação mais ou menos consolidou a opinião moderna esclarecida
a respeito da hipnose. Ao revisarmos a história do hipnotismo, vimos
que este experimentou muitas ascensões e quedas de popularidade. Ele
ainda experimentará outros cursos tempestuosos, devido à própria
natureza do fenômeno, antes que seu lugar na medicina, na cirurgia e
na odontologia seja completamente assegurado.
* * *
Nota do Editor:
Texto extraído do Journal of American Institute of
Hypnosis, que foi fundado por William J. Bryan, Jr.,
M.D.. Este artigo é datado de janeiro de 1963 e foi editado por Anne
H. Spencer, Ph.D., em janeiro de 1998.
http://www.hipno.com.br
Nota do Tradutor:
Texto traduzido para o português e publicado aqui com a autorização da
Dra. Anne H.
Spencer, Ph.D., em junho de 2004. |